Inimigo íntimo, amigo leal
Poucos metros quadrados... Este é o meu território. Andando sempre em círculos, eis o ponto no qual cheguei. Antes de me envergonhar, até um certo orgulho paira no ar. Não me divorciei, não pago pensão, não brigo como ninguém para jogar o meu futebol nas manhãs de sábado ou tomar um porre às sextas. Tanto tempo perdido tentando ser o dono de tudo até perceber que a posição de expectador é bem mais conveniente. Resolvi deixar as coisas rolarem um pouco e assistir de camarote à destruição em massa a que todos fomos condenados: o universo Tyler.
Neste cubículo, recebo visitas íntimas, digo eu te amo para corpos temporários a algumas vezes recordo seus nomes. Trinta dias em casa e a compreensão de que não somos muito mais do que ratos de laboratório, uma espécie de experiência milenar. Agora que já decifrei todos os caminhos possíveis do labirinto, minha única missão é ludibriar os cientistas de colarinho branco, aparentando uma certa dificuldade, afinal não teria mais utilidade e desfrutaria de minha vida sem preocupações se fosse expert em seu jogo.
Não somos o que vemos ou o que projetamos. Nossa visão é bem distorcida e manipulada para, ora otimistas e positivos, ora pessimistas e depreciativos, variarmos da prepotência à depressão, nos locomovendo em um trem desgovernado e repleto de nitroglicerina: um vício só não basta, o compromisso em si não basta. Mas o que basta? O que importa?
Do meu quarto, do meu sonho em horário impróprio, do alto da minha perversão sexual e minha aversão à vida estável e ao matrimônio, em que contexto me encaixo na conjuntura atual? Será que ainda morro de uma overdose social?
Eu sou a rachadura em seu espelho, a puta que te pariu, sem chagas, nem nada. Apenas com o ódio herdado de gerações impuras. Sou você em sua essência mais cruel... Prazer, inimigo íntimo, amigo leal.


0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial