Devaneios...
Era uma noite tranquila e os primeiros pingos anunciavam e chegada da chuva. Como ainda levaria cerca de uma hora até chegar ao meu destino, não lutei muito contra o sono e adormeci no ônibus... Até aí, nada demais. Interessante foi o que aconteceu depois.
Eu sabia que estava no ônibus ainda, mas me via completamente envolto em uma escuridão absurda. Do lado de fora, o cenário não era diferente. Sinceramente, não sei como o motorista ainda conseguia conduzir o veículo, se nem mesmo via sinal dos faróis, inclusive dos demais carros. Entretanto, ouvia tudo claramente e uma conversa em particular me chamou tanto a atenção que me desvencilhei da curiosidade a respeito do breu.
Um casal, pelas vozes aparentemente jovens, discutia aos berros e soluços e, mesmo que o silêncio dominasse os demais passageiros, o clima denunciava um ônibus, se não cheio, ao menos com umas vinte pessoas. O casal não dava sinais de que partiria para a agressão física mas de toda maneira o tom da discussão era áspero. Um acusava o outro pelo fracasso da relação e eu, já calejado de todo esse blablabla babaca, sabia qual seria o próximo passo. Conforme o previsto, o rapaz puxou a cigarra, disse que não dava mais para ele, que tinha sido bom até começarem as brigas e que um dia ainda ririam de tudo aquilo. Desceu e disse a palavra que nós sabemos dizer tão bem nesses momentos:
- Adeus...
Me vi naquela situação... Quantas vezes não fui eu a descer do ônibus e partir em busca de uma nova estrela? Quantas vezes não fui eu a não olhar mais para trás? Sim, eu me pus do lugar daquele rapaz. Até que... ela chorou ainda mais. Copiosamente, sabe? Normalmente não me dizem nada momentos como este, mas algo de estranho aconteceu e, antes que as pessoas digam que quis me aproveitar - como já fiz muitas vezes, confesso -, afirmo que, de forma não intencional, pensei alto demais e acabei dizendo:
- Eu entendo a sua dor...
E é claro que eu entendia... Afinal, não importa quantas vezes desci do ônibus se nenhuma compensa a única vez em que fui eu quem ficou pra trás. Ainda por cima a chuva pra me fazer lembrar de toda uma trama que me acompanha como uma sombra... Pensei comigo: 'Será que ela me ouviu?'. Já sabia a resposta quando aconteceu...
Ela veio em minha direção. Mesmo que eu não conseguisse enxergar nada, sabia que ela estava próxima, sentia o calor de sua pele, quando ela deitou a cabeça em meu ombro e me vi abraçando aquela completa desconhecida. Suas lágrimas molharam um pouco a minha camisa; sua face me era completamente indecifrável, assim como a cor de seus olhos, pele e cabelo. Foi então que, de um agradecimento mudo, porém sentido, aconteceu o beijo. Seus lábios me pediam vida, acalanto, carinho e alma... Tanta verdade naquele beijo e um pouco do amor que a pouco era esquecido. De repente, o ônibus parou, ela me abraçou com força e sentimento e partiu. Me deixou ali sem entender nada, mas compreendendo tudo...
Ainda estava aturdido com o que tinha ocorrido quando acordei. Se é que acordei... Digo, não que eu não tenha (quase) certeza que foi tudo um sonho. Não é isso! Mas é que, apesar de não tão intensa, a escuridão tomava conta de tudo e a Ilha do Governador estava um completo breu... O ônibus já quase todo vazio e eu sem coragem de perguntar nada a ninguém. Prefiro ficar assim... Não sei como explicar, mas é como quero ficar no momento.












